everhere · Ferramenta · Cap. 14 — Vol. 05
MVP
Canvas
Os 6 volumes da Biblioteca Fundacional nunca definem um MVP. O que existe é o ciclo como unidade mínima (Vol. 02) e a lógica de começar com densidade antes de volume (Vol. 04). Este canvas emerge da leitura cruzada: a pergunta não é quais features — é o ciclo fecha?
A pergunta central
O MVP em uma frase
Antes de listar features, defina o critério
Os capítulos anteriores do Vol. 05 descrevem a arquitetura completa do sistema everhere. Mas nenhum responde a pergunta que precede todas as outras: o que construímos primeiro?
A resposta não é uma lista de features. É uma pergunta diferente.
O ciclo é completo quando uma experiência gera a próxima — via Momento Card (distribuição orgânica) e Comunidades (continuidade de relações). O MVP não é uma lista de features: é o menor conjunto capaz de fechar esse ciclo uma vez, com pessoas reais, em Natal.
Isso muda o critério de tudo. Não perguntamos "essa feature está pronta?". Perguntamos: "sem essa feature, o ciclo fecha?"
O Canvas
As 6 Etapas do Ciclo
O que acontece na cabeça do usuário, a feature mínima e o risco real por etapa
- Qual é a feature mínima que impede esta etapa de ser o elo quebrado?
- Por que ela é o mínimo — e não menos?
- O que está acontecendo na cabeça do usuário nesse momento?
| Etapa | Feature mínima | Por que é o mínimo | Status |
|---|---|---|---|
01 · Intenção O que desperta desejo |
Feed com dados reais + deep link do Momento Card |
O app captura intenção que já existe — não cria. Prova social com dados reais é o gatilho. Sem deep link, o card compartilhado não reconecta a quem o viu. | GAP P0 |
02 · Descoberta A pessoa avalia se confia |
Detalhe completo com perfil do criador + avaliações reais visíveis |
Descoberta é jornada de confiança, não de busca. Sem ver quem é o criador e o que outros disseram, a conversão para Decisão tende a zero. | UI MOCK |
03 · Decisão Confirma presença |
Join grátis em ≤ 3 toques + lista de quem já confirmou visível |
"Não quero ser o primeiro." A decisão de confirmar é social. A lista de confirmados resolve um bloqueio psicológico que nenhum copy resolve. | GAP P1 |
04 · Vivência IRL — o app apoia |
Push de lembrete funcional + foto capturada e salva no Supabase |
O app prepara (push resolve no-show) e captura (foto é a matéria-prima do Momento Card). Sem foto salva, a etapa 05 não tem insumo. | GAP P4 |
05 · Memória Fecha e distribui |
Avaliação → Momento Card automático com fotos reais → share externo |
O card é o mecanismo central de distribuição orgânica. Sem ele, o ciclo fecha por dentro mas não distribui. O CAC nunca é zero. O flywheel não gira. | GAP P2 · P3 |
06 · Continuidade O ciclo reinicia |
Deep link que aterra em uma experiência real disponível |
Continuidade não é "o deep link abre o app". É a qualidade da chegada — a pessoa nova precisa encontrar algo real disponível imediatamente. | ausente |
Análise por Etapa — o que está por trás do mínimo
O que acontece na cabeça do usuário, por que a feature mínima é exatamente aquela e não outra, e o que quebra se ela não existir.
A intenção não nasce dentro do app — ela chega de fora. A pessoa está no WhatsApp ou no Instagram e vê um Momento Card de alguém que conhece. A imagem cria FOMO imediato: "isso aconteceu aqui na minha cidade e eu não sabia." Ela toca no deep link com intenção já formada.
O segundo cenário é a intenção latente: a pessoa abre o app numa tarde de quinta e pensa "quero fazer algo diferente neste fim de semana." Ela precisa de prova social — não de uma lista de categorias, mas de evidência visual de que experiências reais estão acontecendo com pessoas reais perto dela.
Em ambos os casos, o app não gera intenção. Ele captura uma que já existe.
Por que deep link? O deep link é a ponte entre o Momento Card (que existe fora do app) e o ciclo. Sem ele, o compartilhamento leva para a home genérica — a intenção gerada pelo card se perde no caminho.
Algoritmo de recomendação personalizada, IA, feed curado por preferências, geolocalização em tempo real, notificações push proativas de descoberta. A intenção no MVP é gerada por prova social simples — fotos reais de experiências acontecendo. Não por relevância computada.
O app existe em modo demonstração permanente. Nenhum teste com pessoa real produz dado válido. O ciclo não começa — não pela falta de feature, mas pela falta de realidade.
Descoberta não é busca — é avaliação de confiança. A pessoa não está procurando "atividades para fazer". Ela está respondendo a três perguntas sem perceber: "Esse lugar é real? Esse criador é de confiança? Vai ter alguém como eu?"
Essa avaliação acontece nos primeiros 8 segundos na tela de detalhe. O usuário escaneia: foto da experiência, nome do criador, número de avaliações, quem já confirmou. Se uma dessas informações está ausente ou vaga, o cérebro interpreta como risco — e a pessoa volta.
Filtros e busca avançada otimizam o caminho até o detalhe. Mas o que converte é o detalhe em si.
Por que avaliações? São a única forma de terceiros validarem a qualidade antes da vivência. Uma experiência com 0 avaliações e uma com 12 de 4.8 são produtos diferentes — mesmo que a descrição seja idêntica.
Busca por IA, filtros multidimensionais, mapa interativo com clustering, recomendações personalizadas. A descoberta no MVP é linear: você vê no feed → confia no detalhe → confirma. Otimização de busca é problema de escala, não de MVP.
A taxa de conversão de Descoberta → Decisão tende a zero. Não por falta de interesse — por falta de confiança. O dado coletado sugere "produto ruim" quando o problema real é ausência de trust signals.
Confirmar presença numa experiência com desconhecidos é um ato social antes de qualquer coisa. A pessoa não está decidindo se quer fazer trilha ou culinária. Ela está decidindo se vai se expor socialmente a um grupo de pessoas que não conhece.
O maior bloqueio não é o preço — é o pensamento "e se eu for o único? e se for estranho?" A lista de quem já confirmou resolve esse bloqueio melhor do que qualquer copy persuasivo. Ver que 5 pessoas já disseram sim transforma a decisão de "risco individual" em "movimento coletivo seguro".
O pagamento é fricção secundária. Primeiro a pessoa precisa querer ir. Depois ela resolve como pagar.
Por que a lista de confirmados? É o trust signal social mais poderoso da etapa. Sem ela, cada pessoa decide no vácuo — sem saber se alguém mais vai. Com ela, a decisão vira adesão a um grupo que já existe.
Checkout completo com Pix e cartão (entra no mês 3), chat pré-evento no app, cancelamento com reembolso automático, lista de espera. O MVP valida comportamento — não pipeline de receita.
Problema clássico de marketplace em cold start: "está vazio, não vou entrar." As primeiras experiências ficam presas em zero confirmações. Nenhuma nova pessoa confirma porque não viu ninguém confirmar antes.
A experiência acontece no mundo real. O app não faz parte dela — e não deveria. A tecnologia deve sumir quando a vivência começa. Mas o app tem dois momentos críticos que determinam se a etapa 05 existirá.
Antes do evento: o problema mais concreto é o no-show. Um criador que planejou para 8 pessoas e recebe 3 tem experiência ruim — e não cria mais. O push de lembrete protege o criador, não só o participante.
Durante o evento: a foto tirada com o celular é a matéria-prima do Momento Card. Se nenhuma foto é salva no Supabase, a etapa 05 não tem insumo. O CaptureScreen não é uma feature de galeria — é a entrada da pipeline de memória.
Por que upload real? Foto tirada e não salva é foto perdida. O Momento Card usa as fotos reais do evento. Sem pipeline de upload, o card usa placeholder — que não cria desejo em quem vê.
Check-in com QR code, lista de participantes com chat durante o evento, gamificação de presença, live sharing de fotos em tempo real. O app sai do caminho. Só volta para capturar.
Sem push: show rate cai, criador tem experiência ruim, para de criar. Sem upload: o Momento Card vira um card genérico sem memória real — que ninguém vai querer compartilhar.
A memória de uma experiência tem dois valores simultâneos: pessoal (quero guardar o que vivi) e social (quero mostrar o que vivi). O Momento Card explora os dois ao mesmo tempo — é o registro pessoal que se transforma em distribuição social.
A psicologia do compartilhamento é simples: a pessoa compartilha o que a faz parecer interessante para os outros. Uma foto comum não vira Stories. Um card visual com identidade, local e contexto vira.
O Momento Card não é uma feature de encerramento. É o mecanismo central de crescimento orgânico do produto inteiro. Tudo que veio antes serve para este momento.
Por que fotos reais? Quem vê o card precisa sentir "isso aconteceu de verdade, com pessoas reais, e foi bom." A qualidade da foto da etapa 04 determina diretamente a capacidade do card de gerar conversão na etapa 06.
Templates editáveis, filtros e edição de foto, galeria coletiva navegável, álbum por evento, share para LinkedIn ou Twitter. O mínimo é um card bonito o suficiente para alguém querer postar — com o deep link embutido.
Esta é a etapa que diferencia o everhere de qualquer outro app de experiências. Sem ela, o produto é competitivo — mas não transformacional. O flywheel não gira. O CAC nunca é zero.
A Continuidade tem dois vetores distintos. Aquisição orgânica: uma pessoa nova descobre o everhere pelo Momento Card compartilhado e entra no ciclo pela primeira vez — é a etapa 01 de outra pessoa começando. Retenção relacional: participante e criador mantêm conexão, e o participante volta.
O MVP precisa resolver apenas o vetor 1. O vetor 2 é produto maduro.
O erro comum é pensar que "Continuidade = deep link funciona." Continuidade é a qualidade do primeiro segundo depois que o link abre. A pessoa nova vem com intenção gerada pelo card. Se ela chega num app genérico sem contexto, a intenção se dissipa.
Por que vagas disponíveis? Se a experiência já encerrou sem alternativa clara, a chegada termina ali. O mínimo é: experiência exibida + caminho para ação imediata.
Sugestões algorítmicas de experiências similares, comunidades pós-evento, chat coletivo, perfil público do participante, sistema de seguidores. São camadas de retenção — válidas no produto maduro, bloqueantes para a clareza do MVP.
Um deep link que abre a home genérica desperdiça todo o trabalho das etapas anteriores. O compartilhamento do Momento Card acontece — mas não resulta em aquisição. O flywheel é um loop aberto: gira, mas não fecha.
Referência
A Jornada Tela a Tela
O ciclo mínimo que transforma uma intenção em memória compartilhada — e a memória em nova descoberta para outra pessoa
O ciclo tem 9 passos. Os passos 1 e 2 existem como interface mas não como dados reais. Os passos 3, 4, 6, 7 e 8 não existem no código. O passo 5 existe parcialmente — abre a galeria mas não salva. Apenas o passo 9 tem uma tela construída e dados reais (via Auth).
Nenhum usuário real consegue completar esse ciclo hoje.
Referência
Gaps Críticos
O que falta — em ordem de impacto no ciclo
A ordem segue o princípio de desbloquear o ciclo de ponta a ponta, não de construir domínio por domínio. O P0 é o mais urgente: sem dados reais, nenhum outro teste é possível.
Esta lista olha para o código já escrito. Para o que falta no schema e nas RPCs — descoberto construindo as 113 telas do protótipo no Figma — ver A Interface everhere (Vol. 08), Capítulo 13.
Critério de Done
Quando o MVP está completo
Não é uma checklist de features — é um ciclo que fecha
O MVP está feito quando for possível, com usuários reais em Natal, completar este ciclo de ponta a ponta — sem intervenção manual, sem dados hardcoded, sem workaround: